Reflexões sobre um maniqueísmo desnecessário: existe mesmo uma herança maldita?

Antes de começar, quero dizer que minha intenção não é defender um partido ou outro, muito menos entrar numa discussão partidária. Não sou filiado a partido algum, mas acredito que cada qual tem o direito de sê-lo se for de sua vontade.

Eu normalmente não entro nesse tipo de discussão porque no fim das contas, ninguém vai mudar de opinião ou abandonar sua visão maniqueísta da política, pode até ceder em alguns pontos, mas jamais deixará de enxergar o outro lado como o “demônio” ou o inimigo. Contudo, quando vejo alguns discursos excessivamente radicais, fico preocupado, não por não acreditar no direito de cada qual manifestar sua convicção inabalável sobre algo, mas pelo fato de que, normalmente, extremismos, ao longo da história, tem levado a humanidade a caminhos um pouco obscuros.

Esse sem dúvida é um dos maiores post que fiz até agora e talvez pelo tamanho, muitos nem o terminarão de ler, mas achei importante colocar o que penso depois da seguinte mensagem.

Durante um  longe debate sobre como se configura a política do movimento estudantil atual na UnB, levou uma ex-aluna a fazer a seguinte declaração em nossa lista de e-mails (grifo meu):

“Banqueiro ganha em qualquer situação e, infelizmente, numa economia globalizada, se torna impossível viver sem eles, mas o PSDB sabe o papel que jogou para que chegássemos até aqui. Quem se dobrou às ordens do Consenso de Washington foram eles e não o atual governo. Fora isso, só pela privatização da Vale do Rio Doce, todos os membros do governo “THC” deveriam estar na cadeia!!! Só para te informar, eu tive o meu salário congelado por 9 anos, começando com Itamar e mantido nos 8 anos de governo “THC”. Essa é a política do PSDB!!! Eles verão o Palácio do Planalto daqui para frente apenas por fotografias, cartões postais ou pela telinha da TV. Não passarão, o povo não vai deixar!!!”

Instigado por tal declaração resolvi fazer a seguinte consideração:

Quer dizer então que a esquerda prefere um partido que governe por anos e anos, sem rotatividade? Quer dizer então que o objeto de críticas da esquerda durante décadas (e ainda hoje é quando se referem ao estado de São Paulo) agora é seu objetivo: deixar um partido governando por anos e anos. Tendo como base experiências históricas passadas, sabemos que isso estimula mais e mais a corrupção (tão abominada por todos), e gera uma acomodação clara do partido governante no que tange à máquina Estatal.
É engraçado ver que aqueles que participaram de movimentos do “Fora Arruda”, não se indignarem com o governo de Agnelo, que diga-se de passagem tem sido um dos piores que já vi no Distrito Federal (tudo bem que os governos aqui não foram dos melhores), e antes que me atirem pedras, digo logo que achei mais do que certo o movimento, pois corrupção e corruptos devem SEMPRE ser punidos, independente de partido ou ideologia.
Voltando ao governo Agnelo, a cidade está extremamente violenta, com o índice de sequestro e homicídios crescentes. Várias pessoas que trabalham na área de segurança do DF são instruídas a abafar ao máximos todos os casos que recebem, pois o Secretário de Segurança não quer uma repercussão negativa dos casos para o governo. Isso não é motivo de indignação? O descaso com a  saúde no DF não é de se indignar? Por que não protestar contra a ineficiência do governo do DF? Por que ele é do PT?
Acredito que o governo Lula teve sim bons resultados no que diz respeito a muitas coisas, como, por exemplo, a construção da imagem brasileira no exterior, mas não se pode esquecer que NADA e nem NINGUÉM começa do zero.  Será se é tão difícil reconhecer as coisas boas que os governos passado fizeram? Muito demonizam as privatizações, mas esquecem que um dos motivos de todos poderem/terem telefone fixo agora, foi justamente isso? Ok, o preço é um dos mais astronômicos do mundo, mas, isso, meus caros, é um reflexo da nossa elevadíssima taxa tributária que serve pra sustentar um aparelho estatal inchado.
Os programas assistenciais tão louvados por muitos, só foram possíveis por conta de toda a estabilização construída em governos anteriores. Caso contrário, o poder de compra das diversas bolsas oferecidas pelo governo virariam pó de um mês para o outro. Por sinal, congelamento de salários e outras coisas como afirmado por alguns, foram medidas impopulares, mas necessárias para garantir a consolidação do processo de combate à inflação. Não são vocês mesmos que afirmam que é necessário se render ao sistema às vezes para garantir o progresso que queremos?
Digo mais, lamento um pouco pela Presidente Dilma, que pegou um país com um déficit público enorme, uma economia mundial abalada e uma herança ministerial e política (para os que não lembram muitos dos que caíram nesses últimos meses eram ministros do governo anterior) que vai levá-la a tomar medidas impopulares, podendo futuramente ser injustiçada por muitos, principalmente, os que a apoiaram.  Seria inocente de minha parte dizer que ela também é vítima em toda essa situação, sei (assim como, acredito que todos aqui) que a política em nosso país ainda depende muito das “lideranças” indesejadas (como Sarney, Calheiros, dentre outros caciques da política) para poder governar, mas acredito que aos poucos ela vai conseguir imprimir em seu governo sua cara, prezando pela eficiência, que deveria ser o norte de qualquer governo e não o apadrinhamento político, que cá entre nós tem sido cada vez maior.
Meus caros, temos de reconhecer que se hoje temos prateleiras do supermercado cheias, acesso à tecnologia (ainda que limitado, pois mais de 40% do preço dos eletrônicos é de impostos) e a carros de verdade e não carroças é graças às tão demonizadas medidas “neoliberais”. Se hoje a classe C e D conseguem comprar um carro, pagar escola pros filhos e comer devidamente não foi só graças ao Governo Lula não. Na verdade, ele soube aproveitar-se da conjuntura que estava construída e tirar proveito dela, e, digo, ainda bem que ele fez isso.
Acho que é isso! Sei que muitos atirarão pedras e vaiarão, mas mais interessante para a democracia seria se essas vaias e pedras fossem substituídas por argumentos sólidos para construirmos aquilo que é uma verdadeira democracia: o embate de idéias feito de forma respeitosa para a construção de um bem comum.

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